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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Cinema: "Les Amours Imaginaires" - um pouco sobre o filme e uma análise sobre figurino.



Xavier Dolan é um menino (24 anos!) que faz, atua em e dubla filmes. Ficou conhecido quando seu primeiro filme "J'ai tué ma mère" ganhou prêmios e estreiou em mais de 20 países. A partir dai, vem trabalhando sua carreira de diretor, onde lançou mais dois filmes: "Les Amours Imaginaires" e "Laurence Anyways".

"Les Amours Imaginaires", ou Heartbeats como foi lançado no inglês, narra a história de dois amigos que se apaixonam pelo mesmo rapaz. Um deles é o próprio Xavier, acompanhado da atriz Monia Chokri - que costuma aparecer sempre em seus filmes - seguido por Niels Schneider.


A história passa diante da tela com toda uma pompa dramática com muitas cenas em câmera lenta acompanhadas por uma trilha sonora clássica - algo meio Almodovariano, digamos assim - dando a sensação de se tratar de uma ópera do cotidiano, onde os personagens se preparam e vão ao encontro de um grande desafio (mas que na verdade se trata de algo banal como ir ao cinema ou a uma festinha hype). A ideia é que, quando estamos apaixonados, o mundo se torna um campo de batalha, e o simples fato de sair de casa e caminhar nas ruas, acaba virando uma grande epopeia moderna. O filme ainda conta com pequenos depoimentos de personagens não identificados que narram histórias particulares de decepções amorosas: algumas engraçadas, como a menina que stalkeia um amor platônico na internet e outras mais sérias, como a que namorava um rapaz de outro país.

Eu, particularmente, amo esse filme e arrisco a dizer que é um dos meus filmes preferidos no geral. A história é bem escrita, os diálogos são ótimos, os personagens interessantes e toda a estética da direção de arte, figurino e fotografia fecham o pacote e fazem com que o filme suba dois degraus no meu patamar.

O figurino, idealizado pelo proprio Xavier, consegue conversar com a história de uma forma muito legal: não só os personagens têm identidades-fashion muito bem definidas (Xavier faz um jovem gay moderninho e Monia uma apreciadora do vintage que se veste como uma dona de casa dos anos 50) mas também a própria dinâmica do filme nos convida a prestar atenção nas roupas e apresenta reflexões até mesmo nos diálogos entre os personagens; ou seja, o filme não nos mostra apenas dois personagens com "algumas roupas"; ele também nos convida e incita a notar essas roupas e pensar sobre elas: por que eles estão vestidos assim? E, ainda mais, por que isso é tão enfatizado?




Em uma livre interpretação, chego a pensar no seguinte esquema: Ele, um jovem gay moderninho, com suas skinny jeans coloridas, botinhas de couro e camisas listradas, representa essa ideia de modernidade, o contemporâneo. Ela, uma garota romântica com ares de Audrey Hepburn, seus cabelos sempre num coque voluptuoso, vestidos comportadinhos e colar de pérolas, representa o "antigo", o tradicional. Entre eles, temos o menino pelo qual os dois se apaixonam: com seu cabelo claro e cacheadinho, labios carnudos e a ideia de Adonis, representa o clássico(a ideia de Deus grego, enfatizada por uma cena em que o ator usa uma espécie de coroa de folhas) que é ao mesmo tempo moderno (afinal, toda a cultura e pensamentos gregos foram o início do que se entende por modernidade.) Ou seja, esse triângulo amoroso gira em torno de dois amigos super diferentes (o que a principio nos faria pensar que cada um teria um tipo diferente de amor) que se apaixonam pelo mesmo homem (ele que no caso é o ideal de perfeição que pode ser desejado por todos). Claro que cada pessoa pode ter uma interpretação diferente e algumas podem até pensar que o figurino não seja tão relevante assim. Mas eu que, né, trabalho com moda, não consigo evitar em analisar dessa forma. :)





Independente de roupas e moda, o filme é um daqueles filmes gostosos de assistir, que não demanda tanto do espectador mas que te deixa com uma sensação de "eu entendo, já passei por isso". Afinal, quem nunca teve um amor imaginário?